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A auto-construção:
A outra forma de se ter um barco novo

O que pode fazer alguém entusiasmar-se por construir o seu próprio barco? Nos anos 60 e 70, a principal razão era económica. A grande maioria dos veleiros, tanto novos como usados, era bastante cara para a esmagadora maioria das bolsas e havia algumas empresas de engenharia naval especializadas na venda de planos para a construção deste tipo de barcos, os quais eram quase exclusivamente de madeira e com um comprimento útil que raramente ultrapassava cinco metros. Em Portugal o pico da construção deste tipo de barcos terá sido no começo dos anos 70, quando a média de barcos de auto-construção lançados anualmente à água rondaria 40 a 50 unidades, a maior parte de vela ligeira mas também alguns cabinados sobretudo do tipo Figaro e Muscadet . No início dos anos 80, a par da melhoria do clima económico ter permitido que começasse a haver um mercado a sério para barcos de produção em série, novos ou usados, a construção de barcos para uso próprio passou a orientar-se para barcos em cimento, alumínio e aço, os quais, apesar de tecnicamente mais complexos, ofereciam bastante mais resistência e, relacionado com isso, uma vida útil bastante mais prolongada.

Com o passar dos anos, tanto o cimento como o alumínio perderam uma boa parte do seu appeal como materiais de casco – o primeiro devido à sua alta densidade e falta de maneabilidade dos barcos, o segundo por causa dos problemas técnicos de construção/soldadura e desempeno). O aço, no entanto, parece estar para durar e é, hoje, de longe, o principal material utilizado nos dois a três veleiros que anualmente se vão fabricando um pouco por todo o país. Para além do custo relativamente baixo - por pouco mais de 3000 euros consegue comprar-se todo o aço necessário para construir um veleiro típico de 34 a 36 pés – o aço é, de longe, o melhor material de casco no que diz respeito a resistência à fadiga e durabilidade.

Dado o interesse desta área a daVELA.net decidiu criar um espaço próprio para a mesma, dirigido por José Oliveira do "Maião". Se tem sugestões ou quer participar nesta página pode contactar-nos através do email: autoconstrucao@davela.net.



É com alguma surpresa que vejo alguém a defender que os cascos em aço são os melhores em termos de resistência à fadiga e durabilidade.

Há cerca de dois anos tive para adquirir um veleiro com casco em aço zincado, mas fui aconselhado por especialistas de reparação naval a não adqurir a embarcação face às desvantagens já conhecidas, que passo a citar:

- elevados custos de manutenção na conservação do casco em aço comparativamente aos de fibra;
no caso de ser necessário a decapagem interior do casco, não se consegue proceder à remoção total da fuligem, que potenciará - o aparecimento de pontos de ferrugem;
- o ressoar no interior da cabine acelera a degradação do aço, implicando elevados custos de desmontagem interior para reparação do casco;

Os mesmos técnicos apresentaram apenas uma vantagem, maior segurança em caso de embate (contra uma embarcação, contentor, toro de árvore, etc.) Face ao que relatei gostaria que me informasse se uma embarcação de aço é preferível a uma de fibra e quais as vantagens.

Nuno Lourenço | 26/02/2006

 

Relativamente ao primeiro ponto que expõe, não há dúvida que um casco de aço tem de ter uma manutenção mais cuidada. Qualquer choque de um objecto que danifique a tinta e atinja a camada inferior será de certeza um ponto de ferrugem que mais tarde irá aparecer. No entanto, convém lembrar que, no caso da fibra, acontece uma situação similar, não no aparecimento de ferrugem, mas num ponto de possível osmose. No caso dos barcos de aço, se a embarcação tiver sido bem decapada e com um processo de pintura adequado, ela irá durar mais anos, e com uns retoques cuidados a embarcação não terá problemas aparentes. Lembramos ainda que existem embarcações de aço com 100 anos, e que o preço da manutenção em aço ou fibra ou outro material qualquer depende mais do estado da embarcação no acto da compra.

No segundo ponto, não entendemos o termo “fuligem”. Quando se faz um processo de decapagem por jacto de areia, as únicas películas que se libertam são os resíduos de tintas, óxido de ferro e a própria areia. Não há dúvida que, no caso dos interiores é difícil remover esta sujidade. No entanto, com pá e vassoura, e mais tarde um bom aspirador resolve-se com relativa facilidade este problema. O aparecimento posterior de pontos de ferrugem está relacionado com uma deficiente pintura, que poderá ser evitada com um bom processo de pintura, mas lembramos que os principais fornecedores de tinta para a indústria naval têm aqui um papel importante de aconselhamento.

Por fim, no último ponto ao mencionar o “ressoar no interior da cabina”, penso que se refere ao fenómeno da condensação. De todos os barcos de ferro que conhecemos nenhum tem este problema. Pelo contrário, normalmente possuem um isolamento bastante superior aos barcos em fibra e não têm problemas relativos ao aparecimento de fungos e bolores. Quando refere que os técnicos apontam como única vantagem para os barcos de aço a segurança. Consideramos que esta é, sem dúvida, a maior qualidade que um barco pode ter.

Um barco de ferro está mais direccionado para um indivíduo que gosta de fazer um pouco de bricolage, que vai fazendo as reparações necessárias, sendo os custos mais reduzidos.
Para finalizar, a escolha da embarcação depende de uma série de factores, nomeadamente estado em que ela se encontra, o preço e o gosto de cada um. Como são embarcações bastante diferentes, as vantagens e desvantagens terão de ser analisadas pelo próprio comprador.

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